Aborto
Há uns dias, no Prós e Contras da RTP1, o meu querido Professor Miguel Oliveira da Silva deslocou-se para encher este país de cultura através das suas palavras. Este senhor é uma referência para mim. Podíamos começar por ele se ter licenciado duas vezes, uma em Medicina, outra em Filosofia. Podíamos terminar pelo seu profundo conceito de respeito pelo ser humano, deixando de fora parágrafos incontáveis das suas qualidades.
Eu, que tanto o admiro, senti-me enraivecida com os risos, com os assobios, com a intolerância.
Quem, como eu, teve o privilégio de privar com o Prof MOS, na condição de sua aluna de Ética Médica, sabe que ele oculta a sua opinião pessoal. Não é isso que se pretende discutir. É ENSINAR A PENSAR!!
“Não me interessa nada saber se vocês são a favor, contra ou assim assim. Eu quero é que vocês argumentem.”
Dentro do meu passivo elitismo, repele-me saber que este país cultiva o Chico Esperto. O Sabe Tudo. O Zé Povinho.
Ideias feitas digeridas com um omeprazol. Para evitar a acidez de termos de pensar por nós próprios.
É de aceitação global que a nossa sociedade moderna é altamente manipulada pela comunicação social, esse filtro castrador que nos diz o que acontece no mundo e o que nos deve preocupar. Claro, com a sua censura democrática.
Pois bem, a comunicação social passa subtilmente (?) a ideia que TODA A GENTE quer que o aborto seja despenalizado e que já é tempo de mudar. E ai de quem disser o contrário. Merece ser queimado em praça pública, apedrejado, excluído. No fundo, é uma questão de dirigir o ódio. Qualquer diferença entre nós e outro ser humano é motivo suficiente para libertarmos um pouco do nosso Id, e é uma onda sustentada que cresce na cara dos outros que se revêem nisto.
Assim, a maioria pensa que é uma hipocrisia manter a penalização do aborto, porque:
- o corpo é da mulher! Que ser intruso, indesejado, repugnável tem o direito à vida e de crescer no local onde foi concebido, voluntariamente? Quem faz, sabe o que faz e os riscos que corre.
- não há condições económicas! Estranho estranho é que eu vejo a prole ilimitada das pessoas financeiramente desfavorecidas a viver em condições surreais, é verdade, e a perpetuar o seu destino de pobreza, mas não andam por aí com cartazes a pedir que lhes interrompam a gravidez.
A grande maioria dos abortos ilegais são praticados por raparigas universitárias de classe média / alta que num deslize (um…) se deixaram ir, inconsequentes. Existem métodos contraceptivos, vários. Qualquer rapariga em idade fértil pode comprar um contraceptivo oral (pílula) e tomá-lo regularmente, qualquer rapaz pode comprar preservativos. E se não têm dinheiro, há tudo isto de distribuição gratuita nos Centros de Saúde e Institutos Portugueses da Juventude. Sem porquês.
- uma criança não desejada não vai ser feliz! Quantos exemplos existem de mães adolescentes que criaram os seus filhos em conjunto com os avós, talvez mais como irmãos do que como filhos, e que são felicíssimas no seu papel de mãe, mesmo que precoce? Claro que há um tempo para tudo na vida, mas a própria gravidez traz maturidade e quem não é boa mãe não é ponto, nem com um filho planeado, nem com um que resulte de um acidente.
- a mãe é demasiado nova e vai estragar a sua vida e a do bebé! Todos nós vivemos num contexto familiar que funciona como suporte, sobretudo nas alturas de crise. Não há avô e avó que não sofra um ataque de pânico perante um “Estou grávida!”, que não seja o primeiro a enternecer-se perante um recém-nascido frágil e perfeito.
- os métodos contraceptivos falham! A taxa de insucesso de uma pílula ou preservativo é tão baixa que não justificaria sequer este debate. Se as pessoas se protegem e ocorre um acidente, existe a pílula do dia seguinte (que se vende em Portugal como pãezinhos quentes).
Eu poderia tolerar o aborto como último recurso, quando tudo falhou. Mas não é essa a nossa realidade nem é este o motivo pelo qual as pessoas engravidam. Ignorância, excesso de confiança, … talvez se adequem.
Só é possível encarar a hipótese do aborto muito depois de todas as precauções estarem instituídas e cumpridas e exista responsabilidade social. E se isto passa pelas tais aulas de Sexualidade na escolinha – que são imprescindíveis - , passa também e sobretudo pela atenção dos pais. Não tapar o sol com a peneira. É um assunto difícil, pois é, mas ser pai ou mãe exige muito mais do que disponibilidade financeira. Lembram-se do anúncio, “ E se só desse 7% do carinho aos seus filhos?”.
- os mecanismos de adopção são muito lentos. É verdade, concordo. O Estado falha aqui redondamente, como em muitas outras coisas. É uma vergonha que as crianças das Instituições se prostituam, que sejam seduzidas por mundos sem escolha, que não tenham as mesmas oportunidades. É injusto, pois é. Então, enquanto cidadãos com sentido cívico, lutemos por políticos honestos e eficazes, que não torrem o nosso dinheiro em carros, em refeições, em hóteis, em viagens, em orgias, em tudo o que se pode comprar. Participemos na nossa sociedade, com o que pudemos oferecer.
Dizem também que nenhuma mulher faz um aborto levianamente. Acham mesmo? Quantas loirinhas magrinhas prateadas com voluptuosos decotes bebidas sozinhas se perdem na conversa bem treinada do morenaço de copo na mão, com o último perfume da moda?
Todas as mulheres podem errar. Todas nós sentimos a solidão e é fácil acreditar nas palavras ocas que desembocam em sexo fácil, com a intenção suicida de os prender.
Nada mais falso.
Não se caça um marido numa noite fácil de sexta ou sábado, não nos cai um companheiro nos braços. O amor não nasce na primeira noite de atracção.
E estas precipitações trazem não só o risco de uma gravidez monologa, de uma doença sexualmente transmissível, mas o engano e a nossa própria crucificação repetida.
É fácil ir até à senhora enfermeira para tirar o bebé – há sempre alguém que conhece um sítio… ou então basta procurar os anúncios a amarelo nos classificados do Público ou do DN (jornais cujo público alvo é a classe baixa, não é??), Espanha é aqui tão perto.
Matar um filho… não é um aglomerado de células, não é uma coisa que não se vê e que portanto não se gosta, quase como se não estivesse lá.
Vi há tempos um filme verídico, “Vera Drake”, que retratava uma senhora (VD) que na Inglaterra dos anos 50 praticava o aborto em mulheres que não tinham a quem mais recorrer. Ela não cobrava nada, mas a sua sócia cobrava pelas duas, nas suas costas. Uma das (muitas) mulheres que teve complicações, entrando em sépsis, denunciou-a às autoridades. VD foi presa. Chorou pela vida que perdia, mas não se arrependeu. Talvez ela tenha visto uma realidade que eu não quero ver.
Já devem ter concluído que eu sou contra. Vejo pelos países mais avançados que nós que o aborto será naturalmente despenalizado. E aceito. Neles, aceito. Essas sociedades estão preparadas para essa opção porque usam todas as precedentes. Nós não estamos e é nisso que temos de investir. Depois sim, pensemos no aborto.
Não me satisfaz ver mulheres presas por terem feito um aborto. Mulheres com os seus dramas pessoais, com as suas justificações. Mas sei que tem de existir um limite penal para que exista alguma relutância em encarar o aborto.
Já fui várias vezes a escolas falar de sexualidade e de outras coisas, através do Projecto Ponte, entretanto terminado. Continuo disponível para ajudar na formação dos nossos jovens. E a acreditar, apesar de saber previamente que a resposta à votação é o Sim. Infelizmente.
Quem, como eu, teve o privilégio de privar com o Prof MOS, na condição de sua aluna de Ética Médica, sabe que ele oculta a sua opinião pessoal. Não é isso que se pretende discutir. É ENSINAR A PENSAR!!
“Não me interessa nada saber se vocês são a favor, contra ou assim assim. Eu quero é que vocês argumentem.”
Dentro do meu passivo elitismo, repele-me saber que este país cultiva o Chico Esperto. O Sabe Tudo. O Zé Povinho.
Ideias feitas digeridas com um omeprazol. Para evitar a acidez de termos de pensar por nós próprios.
É de aceitação global que a nossa sociedade moderna é altamente manipulada pela comunicação social, esse filtro castrador que nos diz o que acontece no mundo e o que nos deve preocupar. Claro, com a sua censura democrática.
Pois bem, a comunicação social passa subtilmente (?) a ideia que TODA A GENTE quer que o aborto seja despenalizado e que já é tempo de mudar. E ai de quem disser o contrário. Merece ser queimado em praça pública, apedrejado, excluído. No fundo, é uma questão de dirigir o ódio. Qualquer diferença entre nós e outro ser humano é motivo suficiente para libertarmos um pouco do nosso Id, e é uma onda sustentada que cresce na cara dos outros que se revêem nisto.
Assim, a maioria pensa que é uma hipocrisia manter a penalização do aborto, porque:
- o corpo é da mulher! Que ser intruso, indesejado, repugnável tem o direito à vida e de crescer no local onde foi concebido, voluntariamente? Quem faz, sabe o que faz e os riscos que corre.
- não há condições económicas! Estranho estranho é que eu vejo a prole ilimitada das pessoas financeiramente desfavorecidas a viver em condições surreais, é verdade, e a perpetuar o seu destino de pobreza, mas não andam por aí com cartazes a pedir que lhes interrompam a gravidez.
A grande maioria dos abortos ilegais são praticados por raparigas universitárias de classe média / alta que num deslize (um…) se deixaram ir, inconsequentes. Existem métodos contraceptivos, vários. Qualquer rapariga em idade fértil pode comprar um contraceptivo oral (pílula) e tomá-lo regularmente, qualquer rapaz pode comprar preservativos. E se não têm dinheiro, há tudo isto de distribuição gratuita nos Centros de Saúde e Institutos Portugueses da Juventude. Sem porquês.
- uma criança não desejada não vai ser feliz! Quantos exemplos existem de mães adolescentes que criaram os seus filhos em conjunto com os avós, talvez mais como irmãos do que como filhos, e que são felicíssimas no seu papel de mãe, mesmo que precoce? Claro que há um tempo para tudo na vida, mas a própria gravidez traz maturidade e quem não é boa mãe não é ponto, nem com um filho planeado, nem com um que resulte de um acidente.
- a mãe é demasiado nova e vai estragar a sua vida e a do bebé! Todos nós vivemos num contexto familiar que funciona como suporte, sobretudo nas alturas de crise. Não há avô e avó que não sofra um ataque de pânico perante um “Estou grávida!”, que não seja o primeiro a enternecer-se perante um recém-nascido frágil e perfeito.
- os métodos contraceptivos falham! A taxa de insucesso de uma pílula ou preservativo é tão baixa que não justificaria sequer este debate. Se as pessoas se protegem e ocorre um acidente, existe a pílula do dia seguinte (que se vende em Portugal como pãezinhos quentes).
Eu poderia tolerar o aborto como último recurso, quando tudo falhou. Mas não é essa a nossa realidade nem é este o motivo pelo qual as pessoas engravidam. Ignorância, excesso de confiança, … talvez se adequem.
Só é possível encarar a hipótese do aborto muito depois de todas as precauções estarem instituídas e cumpridas e exista responsabilidade social. E se isto passa pelas tais aulas de Sexualidade na escolinha – que são imprescindíveis - , passa também e sobretudo pela atenção dos pais. Não tapar o sol com a peneira. É um assunto difícil, pois é, mas ser pai ou mãe exige muito mais do que disponibilidade financeira. Lembram-se do anúncio, “ E se só desse 7% do carinho aos seus filhos?”.
- os mecanismos de adopção são muito lentos. É verdade, concordo. O Estado falha aqui redondamente, como em muitas outras coisas. É uma vergonha que as crianças das Instituições se prostituam, que sejam seduzidas por mundos sem escolha, que não tenham as mesmas oportunidades. É injusto, pois é. Então, enquanto cidadãos com sentido cívico, lutemos por políticos honestos e eficazes, que não torrem o nosso dinheiro em carros, em refeições, em hóteis, em viagens, em orgias, em tudo o que se pode comprar. Participemos na nossa sociedade, com o que pudemos oferecer.
Dizem também que nenhuma mulher faz um aborto levianamente. Acham mesmo? Quantas loirinhas magrinhas prateadas com voluptuosos decotes bebidas sozinhas se perdem na conversa bem treinada do morenaço de copo na mão, com o último perfume da moda?
Todas as mulheres podem errar. Todas nós sentimos a solidão e é fácil acreditar nas palavras ocas que desembocam em sexo fácil, com a intenção suicida de os prender.
Nada mais falso.
Não se caça um marido numa noite fácil de sexta ou sábado, não nos cai um companheiro nos braços. O amor não nasce na primeira noite de atracção.
E estas precipitações trazem não só o risco de uma gravidez monologa, de uma doença sexualmente transmissível, mas o engano e a nossa própria crucificação repetida.
É fácil ir até à senhora enfermeira para tirar o bebé – há sempre alguém que conhece um sítio… ou então basta procurar os anúncios a amarelo nos classificados do Público ou do DN (jornais cujo público alvo é a classe baixa, não é??), Espanha é aqui tão perto.
Matar um filho… não é um aglomerado de células, não é uma coisa que não se vê e que portanto não se gosta, quase como se não estivesse lá.
Vi há tempos um filme verídico, “Vera Drake”, que retratava uma senhora (VD) que na Inglaterra dos anos 50 praticava o aborto em mulheres que não tinham a quem mais recorrer. Ela não cobrava nada, mas a sua sócia cobrava pelas duas, nas suas costas. Uma das (muitas) mulheres que teve complicações, entrando em sépsis, denunciou-a às autoridades. VD foi presa. Chorou pela vida que perdia, mas não se arrependeu. Talvez ela tenha visto uma realidade que eu não quero ver.
Já devem ter concluído que eu sou contra. Vejo pelos países mais avançados que nós que o aborto será naturalmente despenalizado. E aceito. Neles, aceito. Essas sociedades estão preparadas para essa opção porque usam todas as precedentes. Nós não estamos e é nisso que temos de investir. Depois sim, pensemos no aborto.
Não me satisfaz ver mulheres presas por terem feito um aborto. Mulheres com os seus dramas pessoais, com as suas justificações. Mas sei que tem de existir um limite penal para que exista alguma relutância em encarar o aborto.
Já fui várias vezes a escolas falar de sexualidade e de outras coisas, através do Projecto Ponte, entretanto terminado. Continuo disponível para ajudar na formação dos nossos jovens. E a acreditar, apesar de saber previamente que a resposta à votação é o Sim. Infelizmente.


8 Comments:
Clara,
Eu também já fui contra.
Mas também já me apercebi que, se o aborto for despenalizado, não haverá um único aborto a mais do que com a actual legislação.
Só faz quem está desesperado.
Com ou sem penalização. São as circunstâncias que ditam as regras do jogo e não uma decisão ético-política. Se alguém tiver que o fazer fá-lo-á, com ou sem consentimento. E pagar com a vida é um risco que infeliz e desnecessariamente terá que correr.
Ninguém o faz por gosto. Mesmo despenalizando, a mulher sofrerá para o resto da vida com esse momento e nunca se esquecerá do pior dia da sua vida.
Em última instância a grande diferença está em sobreviver ou não. Já há um embrião que não nasce. É preciso ainda matar uma mulher sofrida?
9:02 PM
É um argumento de peso a favor da despenalização. O que me prende é a leviandade com que se encara um aborto, com que se recusa uma vida humana. a despenalização só vai acelerar a rapidez com que se toma a decisão. claro que há mulheres mais conscientes, mas são as que se precipitam antes e depois que me afligem. e são demasiadas. em termos médicos, felizmente não conheço as realidades das clínicas em que se pratica o aborto mas sei que é fácil obter a colaboração do ginecologista de confiança. E portanto não creio que a morte da mulher seja uma hipótese estatisticamente real. De qualquer forma, prometo pensar :) e obrigada pelo diferente ponto de vista :)
11:12 PM
Tens razão Clara, sou homem e tb não sou a favor dos abortos... Mas tendo em conta o que certas mulheres passam eu digo sim à legalização do aborto e não à liberalização do aborto.
10:33 PM
Obrigada pela tua opiniao :) mas na pratica legalização será tendencialmente igual a liberalização, não concordas? :)
1:04 AM
Não é uma coisa da moda, Clara. Penso exactamente da mesma maneira que pensava ha 8 anos atrás quando ainda não podia votar. Não tenho tanta certeza como tu que o "Sim" vai ganhar mas espero que tenhas razão nas tuas previsões e eu lá estarei para votar em plena consciência. Que é isso que é importante, o direito à escolha, mas a uma escolha consciente ;)
10:36 PM
Ines :) muito obrigada pela opinião :)beijinhos :)
3:06 PM
Boas, encontrei este blog através de um link...
Gostaria apenas de dizer que apesar de homem e não ser a favor do aborto, vou votar SIM no referendo.
Julgo que é um remendo necessário tendo em conta o contexto socio-cultural em que vivemos e todos os males que ele tem. No entanto acho que deve ser legislado por forma a penalizar quem use e abuse dele (algo radical mas acho que seria o mais indicado era a esterilização dos casais que pratiquem acima de Y abortos por 'descuido', etc).
Permite-me no entando discordar de quando dizes que é aceitável o aborto em outros países mais avançados. Eu defendo o contrário (apesar de não me chocar que o aborto continue lá legal pelo menos até às 10 semanas - mais semana menos semana - , diga-se, tolero). Acho que nesses paises é onde o aborto terá menos razão de existir, quer por haver estruturas sociais bem mais eficientes na recolha e adopção de crianças abandonadas/maltratadas, quer por a sociedade não recriminar tanto "os erros da juventude" (e não só) e ajudá-los a ultrapassar os mesmos.
Fica bem :)
4:40 PM
Sócrates, muito obrigada pela opinião :)
11:04 PM
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