Ensaio sobre a Cegueira
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
Mal branco. Mar de Leite. Treva branca.
“A luz, esta luz, para ele, tornara-se em ruído.
A circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.
O remorso, uma consciência com dentes para morder.
Se o caso fosse de agnósia, o paciente estaria vendo agora o que sempre tinha visto, isto é, não teria ocorrido nele qualquer diminuição da acuidade visual, simplesmente o cérebro ter-se-ia tornado incapaz de reconhecer uma cadeira onde estivesse uma cadeira, quer dizer, continuaria a reagir correctamente aos estímulos luminosos encaminhados pelo nervo óptico, mas para usar uns termos comuns, ao alcance de gente pouco informada, teria perdido a capacidade de saber que sabia e, mais ainda, de dizê-lo.
Uma amaurose branca, além de ser etimologicamente uma contradição, seria também uma impossibilidade neurológica, uma vez que o cérebro, que não poderia então perceber as imagens, as formas e as cores da realidade, não poderia da mesma maneira, para assim dizê-lo, cobrir de branco, de um branco contínuo, com uma pintura branca sem tonalidades, as cores, as formas e as imagens.
É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.”
(Tenho vontade de transcrever parágrafo sim parágrafo sim.
Sabe-me a Steinbeck, a Paul Auster, a Lobo Antunes, a literatura do sempre.
A lê-lo, efusivamente, pululando o intelecto, salivando, comendo com os dedos comendo com os olhos numa insaciedade infinita…
… a propósito de comentários de comida… nos tais desenhos animados da tv2 há alguém interveniente na produção daquilo cuja infância deve ter sido repleta de jogos psicológicos com a comida =S)


1 Comments:
Pedindo antecipadas desculpas pela “invasão” e alguma usurpação de espaço, gostaríamos de deixar o convite para uma visita a este Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa...
11:25 PM
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