Quarta-feira, Agosto 20, 2008

SIM, É ISSO, É EXACTAMENTE ISSO: UMA NÁUSEA NAS MÃOS.

“Não devem saber o nome deste gigante de bronze, mas percebem, pela sobrecasaca e pelo chapéu alto, que foi alguém da alta sociedade.
Não precisam de o fitar muito tempo para compreender que a ilustre personagem pensava como elas, exactamente como elas, sobre todos os assuntos. Foi ao serviço das ideias delas, das suas ideiazinhas estreitas e sólidas, que a personagem impôs a sua autoridade.
As senhoras de preto sentem-se aliviadas; podem entregar-se tranquilamente ao arranjo da casa, vir passear o cãozinho: já nem são responsáveis pela defesa das santas ideias, das boas ideias que lhes legaram os pais: um homem de bronze vela por elas.”

“É um profissional da experiência: os médicos, os padres, os magistrados e os oficiais conhecem o homem como se o tivessem feito.
Profissionais da experiência? Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhados por um remoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia.
E, depois, pelos quarenta anos, baptizam as suas obstinações e alguns provérbios com o nome de experiência, começam a fazer de distribuidores automáticos: dois vinténs na ranhura da esquerda e saem anedotas embrulhadas em papel de prata; dois vinténs na ranhura da direita e saem preciosos conselhos que se colam aos dentes como pasta de caramelo.
Mas há também os amadores. São os secretários, o empregado, o comerciante, os que ouvem os outros no café. Sentem-se inchados, por altura dos quarenta anos, por uma experiência a que não podem dar saída. Felizmente, fizeram filhos, e obrigam-nos a consumi-la em casa. Gostariam de nos fazer crer que o seu passado não se perdeu, que as suas recordações não se condensaram, suavemente convertidas em sabedoria.”

“As ideias gerais são mais reconfortantes. Os profissionais e até os amadores acabam por ter razão. A sua sabedoria recomenda que façamos o menos barulho possível, que vivamos o menos possível, que nos deixemos esquecer. As suas melhores histórias são as de imprudentes, de originais que foram castigados.”

“Ter amado é muito melhor que amar ainda: graças ao recuo, ajuíza-se, compara-se, reflecte-se.”

“Nada. Existi.”

“A Náusea sou eu.”

“Espantado desta vida que me é dada… dada para nada.”


A Náusea do JP Sartre, um dos livros da minha vida.
Da minha vida actual.
Actual e promissora.